Sábado, 4 de Julho de 2009

















- Sentes-te sozinha?
Acontece que foi apenas uma das tuas sete vidas e agora o que me faz impressão é o silêncio do sótão onde te pensava deitada de olhar verde de patinhas delicadas a correr a vir ter comigo quando me ouvias chorar e agora o que me faz impressão é o silêncio do sótão contigo deitada sobre mim de olhar verde e patinhas delicadas a ver televisão aos sábados de manhã e eu a rir-me de pão com manteiga na mão a rir-me preta e branca do sótão pedaço da minha infância de pão com manteiga na mão
- São os rins
a ouvir-te pela última vez ao telefone
- Filha, bebe água
agora não. Talvez daqui a quatro horas mas agora não agora aguenta-te finge que és forte que eu ainda não te vi
- Merda para os rins
a sofrer, a sofrer
- Lembra-te de mim.

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

















Só para não estar calada digo-te que sem luz não consigo fazer nada. Porque ver fica mais barato e de todas as vezes que fui generosa, fui humilhada.

- Mas Mário Cesariny foi sobretudo um insubmisso.

Está bem, mas, diz ela, dolorosamente honesta, o amor é que nos desfaz.

- What makes you so sad? You're the saddest girl I ever met.

- I'm playing games with his pain.

Ele há gente com mau feitio. Terei então uma tonalidade matizada, olhos amendoados côr (com acento circunflexo) violeta.

- Les garçons et les choses!

dar de comer a quem tem fome
dar de beber a quem tem sede
vestir os nus
dar pousada aos peregrinos
visitar os enfermos
visitar os prisioneiros
enterrar os mortos
corrigir os que erram
ensinar os ignorantes
dar bom conselho
consolar os aflitos
sofrer com paciência as fraquezas do próximo
perdoar as injúrias
rogar a Deus pelos vivos e defuntos


- Imposible olvidarlo.

Terça-feira, 9 de Junho de 2009






















a razão de existir de um poeta é...

Manel Cruz dia 9 de Junho em Lisboa, no Cinema S. Jorge e no Porto dia 12 de Junho, no Teatro Sá da Bandeira.

O curioso é ter esgotado em Lisboa e não no Porto...

Quinta-feira, 28 de Maio de 2009





















Acontece que me canso de meus pés e de minhas unhas,
do meu cabelo e até da minha sombra.
Acontece que me canso de ser homem.

Todavia, seria delicioso
assustar um notário com um lírio cortado
ou matar uma freira com um soco na orelha.
Seria belo
ir pelas ruas com uma faca verde
e aos gritos até morrer de frio.

Passeio calmamente, com olhos, com sapatos,
com fúria e esquecimento,
passo, atravesso escritórios e lojas ortopédicas,
e pátios onde há roupa pendurada num arame:
cuecas, toalhas e camisas que choram
lentas lágrimas sórdidas.


Walking Around, Pablo Neruda

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

















À noite, na rua, quando olho uma janela iluminada penso sempre que seria feliz se morasse lá dentro.
(difícil explicar isto)
- O que é que eu faço agora? Vou constipar-me de certeza.
a de dezoito
(o miúdo é muito sensível)
E continua a pasmar-me - a pensar, o cretino, que seria feliz se morasse aqui dentro.
Os cus de judas que sei bem ser plural na maneira que olhas discordo em muita coisa sabes bem que gosto de rugas não é esse o problema o problema não é esse
- A vida é uma grande gaita
(e como é difícil explicar isto)
mas não consigo: eu indiferente, distante
- Detesto lamechices
e a carne do jantar tinha nervos, não é fácil de mastigar e a roupa a secar num fio que o dia de amanhã vai ser um dia bom pena é o vento que enrola a roupa mas nem tudo é fácil de mastigar
(a minha capacidade de silêncio é surpreendente)
- O que foi?
é que me aborrece, sabes, verter a minha alma para um cano mais do que me deixar a afundar na cama aberta
(adorava fumar)
e, por amor de nós, o tic tac dos relógios que não tem o meu sangue nas veias admites-te cansado a correr atrás dos pombos umas escadinhas e eu, esquecida, a esquecer-me e tu
- Espera
escrevi esmola e, depois de haver escrito, hesitei: esmola não parecia bem.
- És um homem e tanto, eu é que não aguento lamechices.
Um dia vi um enterro de uma menina e fiquei a tremer que tempos, aflitíssima, até que me explicaram que não era eu.
- O seu peixinho cozido, Madame
e eu a fitar os olhos do bicho, adormecido na travessa
(a agrupar as feições que não são geométricas, tornei-me velha tão depressa)
- Estes artistas
com a mesma vontade de lhes perguntar o que acham do pós-modernismo e a minha pena dos pombos que têm mais fome que eu, a arranjar-lhes uma casa na varanda
- Os meus pais são tão lindos
(e eu que detesto lamechices)
e entendo tão bem toda a gente. Os pombos outra vez, apetece-me ter o queixo peganhento, que me limpem a boca. O sorriso inclina-se, dobra-se.
- É que esta vida não é minha
encontrei-a, agarrei-a quando a minha casa estalava, no meio do oceano, meio relojoeira, pirata, princesa e bruxa, não penses que me esqueço, que ser escritora é meio caminho andado para morrer à fome.
- Isto fica entre nós.

Terça-feira, 26 de Maio de 2009

















Como uma das pernas do sacristão era mais curta que a outra às vezes a caixa das esmolas chocalhava, os sons multiplicavam-se e eu com ganas de morder aquilo tudo.

Domingo, 10 de Maio de 2009

















Tu vais-me esquecer. É inevitável, todos me esquecem - e as fotografias, as cartas? Perdem-se, como eu. Tu vais-me esquecer, todos me esquecem. Foi aquele filme brasileiro, o romance entre o menino e a mulher. Fujo sabendo que me vão esquecer, fujo porque sei que me vão esquecer. O menino e a mulher e eu a ver - ele vai-te esquecer e eu a querer acreditar que não, que sou mais, mas não sou. Tu vais-me esquecer. Como o menino esqueceu a mulher. Inevitável.

Quarta-feira, 1 de Abril de 2009
















Dizia María Zambrano, com a precisão que convém aos poetas, nas últimas palavras que escreveu e publicou, que a Poesia não é mais que "a palavra conjugada com o número". Poder-se-ia dizer mais com menos palavras? Pois, de modo semelhante, a Arquitectura, tal como alguns a entendemos, é a conjugação da matéria com o número.

A Poesia e a Arquitectura têm em comum componentes concretos em quantidades medidas, acordados com sabedoria.

em Ideia Construida, Alberto Campo Baeza, 1999

Segunda-feira, 2 de Março de 2009















Não quero grandes textos. É preciso tempo para coçar a barriga. Sou uma auto-didacta guiada. A dimensão da raíz, regra geral, é a dimensão da copa.

E eu ando a ficar com calos - maqueta número um.

Partida!

Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009



Jan Švankmajer, surrealista checo - incómodo, brilhante.

Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

















crónica da besta #1

A sorte é que tu tens as tuas falhas. Um ser duende, um músculo. Uma crosta de uma ferida feita com amor. Fico assim dorida de vez em quando com vergonha do meu embaraço, imagina. Sou reles, sou uma, apenas, pareço tantas, mas sou só uma, e não sou suficiente para te apontar um dedo mal pintado. És tão bonito
- e tu tens as minhas falhas.
Um ser doente, um músculo. Vincado na seda, indefeso e eu com pena. És tão bonito
- e tu tens as tuas falhas.
Eu não, sou diferente. Tenho parte de trás. Sou diferente.
Vocês são todos iguais e eu sou diferente.

Domingo, 8 de Fevereiro de 2009

















Eu tento ser correcta com os meus vizinhos, tento ser correcta com os desconhecidos: ajudo muita gente. Seja como for, tenho alergias, não vejo resultado nenhum.
Finjo cada vez melhor: quem me dera ser sociável. Sou um bicho do mato, mesmo bicho-bicho, sem Deus, daqueles que falam para o seu esqueleto, daqueles que magoam os joelhos, daqueles que são apanhados a mentir, daqueles que fogem a sete pés do escuro (como uma criança).
Eu sou só o meu esqueleto (beijem-me). Não sei do que falo: nunca sei do que falo. Mas gosto de ouvir os santos e as depressões são para quem as pode ter.

Espero que me perdoem.

Domingo, 11 de Janeiro de 2009

















O Largo do Romal, na Baixa Medieval de Coimbra, sofreu uma intervenção recente, mas mantém muito do que o distingue: a maneira de como os habitantes conseguem com que o espaço se consiga adaptar a eles, deixando nele cicatrizes físicas e códigos de uma identidade comum, consequência de circunstâncias específicas, históricas e culturais.
Um lugar perdido no tempo, imutável: o ramo de louro a indicar a presença de uma taberna. A empregada, de bata, encostada à porta vai-e-vem, tradicionalmente conservada, a ver quem passa, numa ansiedade do movimento que cumpre a rotina dos dias.
A Rua das Azeiteiras: do lado direito tudo restaurantes e uma frutaria, no fundo a Praça do Comércio, do lado esquerdo, mais restaurantes, casas abandonadas e uma residencial de porta aberta, onde um pavimento antigo de azulejo hidráulico dá as boas-vindas a uma rua pobre, suja, barulhenta e velha, isto é, artesanal, genuína, familiar e castiça.

O fluxo sanguíneo das ruas, o código gráfico das ruas, a representação mental das ruas, um apelo às nossas sensações, o estímulo sonoro, a sustentatibilidade, a transgressão, o desmontar, um entendimento das coisas serem como são, de estarem como estão, cuidados de vidas amontoadas, vividas, gastas, cicatrizadas no tempo e no espaço.

O espaço não existe sem o tempo: o tempo é o intervalo entre duas sensações e o espaço é a representação mental do território entre duas tentações.

Não consegues arranjar nenhuma opinião?

Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008

















Que os filhos saíram melhor que os pais e que a mulher do outro era uma vadia. Esta relação emocional com a falta de clareza que ele tem, impressiona-me. Impressiona-me tudo nele, é certo. O nariz, impressiona-me. A altura, impressiona-me. Reparei hoje que ele se impressiona com ele mesmo. A contradição, a autoridade que nunca existiu mas finge que, sim senhora, está lá - um disparate. As palavras emaranhadas que tropeçaram na entrada. Estou-me a foder para a imagem que passo. Isto às vezes até parece que é verdade - se calhar até é. Enfim, abençoado, o pai de meu pai.

Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008






















Ela diz: vai ser necessário que ele vá à terra emergente. Não podemos flutuar eternamente, precisamos de um mundo para viver.

em Cages, Dave McKean, 1998.

Terça-feira, 23 de Dezembro de 2008

















Porque julgamos digna de registo
a nossa exposição, senhor Ministro,
erguemos até vós, humildemente,
uma toada uníssona e plangente
em que evitámos o menor deslize
e em que damos razão da nossa crise.

Senhor: Em vão, esta província inteira,
desmoita, lavra, atalha a sementeira,
suando até à fralda da camisa.

Falta a matéria orgânica precisa
na terra, que é delgada e sempre fraca!
- A matéria, em questão, chama-se caca.

Precisamos de merda, senhor Soisa!…
E nunca precisámos de outra coisa.

Se os membros desse ilustre ministério
querem tomar o nosso caso a sério,
se é nobre o sentimento que os anima,
mandem cagar-nos toda a gente em cima
dos maninhos torrões de cada herdade.

E mijem-nos, também, por caridade!

O senhor Oliveira Salazar
quando tiver vontade de cagar
venha até nós!
Solícito, calado,
busque um terreno que estiver lavrado,
deite as calças abaixo com sossego,
ajeite o cú bem apontado ao rego,
e… como Presidente do Conselho,
queira espremer-se até ficar vermelho!

A Nação confiou-lhe os seus destinos?...
Então, comprima, aperte os intestinos;
se lhe escapar um traque, não se importe,
… quem sabe se o cheirá-lo nos dá sorte?

Quantos porão as suas esperanças
n’um traque do Ministro das Finanças?…
E quem vier aflito, sem recursos,
Já não distingue os traques dos discursos.
Não precisa falar! Tenha a certeza
que a nossa maior fonte de riqueza,
desde as grandes herdades às courelas,
provém da merda que juntarmos n’elas.

Precisamos de merda, senhor Soisa!…
E nunca precisámos de outra coisa.

Adubos de potassa?… Cal?… Azote?…
Tragam-nos merda pura, do bispote!

E todos os penicos portugueses
durante, pelo menos uns seis meses,
sobre o montado, sobre a terra campa,
continuamente nos despejem trampa!

Terras alentejanas, terras nuas;
desespero de arados e charruas,
quem as compra ou arrenda ou quem as herda
sente a paixão nostálgica da merda…

Precisamos de merda, senhor Soisa!…
E nunca precisámos de outra coisa.

Ah!… Merda grossa e fina! Merda boa
das inúteis retretes de Lisboa!…
Como é triste saber que todos vós
Andais cagando sem pensar em nós!

Se querem fomentar a agricultura
mandem vir muita gente com soltura.
Nós daremos o trigo em larga escala,
pois até nos faz conta a merda rala.

Venham todas as merdas à vontade,
não faremos questão da qualidade.
Formas normais ou formas esquisitas!
E, desde o cagalhão às caganitas,
desde a pequena poia à grande bosta,
de tudo o que vier, a gente gosta.

Precisamos de merda, senhor Soisa!…
E nunca precisámos de outra coisa.

Pela Junta Corporativa dos Sindicatos Reunidos, do Norte, Centro e Sul do Alentejo
Évora, 13 de Fevereiro de 1934
O Presidente D. Tancredo (O Lavrador)

Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008





















Morre! Não pintes assim… é um dos comentários que se podia ler a certa altura no livro de visitas de uma exposição de Trevor Brown que teve lugar em Quioto em 1996 – e que está citado no site do artista. Mais à frente, pele muito fresca, de aspecto saudável - o teu trabalho cansou-me muito, parece-me que estou a ficar doente – vou-me embora, procurar outra felicidade. E ainda, acho que ele se irá suicidar dentro de dois anos.