
À noite, na rua, quando olho uma janela iluminada penso sempre que seria feliz se morasse lá dentro.
(difícil explicar isto)
- O que é que eu faço agora? Vou constipar-me de certeza.
a de dezoito
(o miúdo é muito sensível)
E continua a pasmar-me - a pensar, o cretino, que seria feliz se morasse aqui dentro.
Os cus de judas que sei bem ser plural na maneira que olhas discordo em muita coisa sabes bem que gosto de rugas não é esse o problema o problema não é esse
- A vida é uma grande gaita
(e como é difícil explicar isto)
mas não consigo: eu indiferente, distante
- Detesto lamechices
e a carne do jantar tinha nervos, não é fácil de mastigar e a roupa a secar num fio que o dia de amanhã vai ser um dia bom pena é o vento que enrola a roupa mas nem tudo é fácil de mastigar
(a minha capacidade de silêncio é surpreendente)
- O que foi?
é que me aborrece, sabes, verter a minha alma para um cano mais do que me deixar a afundar na cama aberta
(adorava fumar)
e, por amor de nós, o tic tac dos relógios que não tem o meu sangue nas veias admites-te cansado a correr atrás dos pombos umas escadinhas e eu, esquecida, a esquecer-me e tu
- Espera
escrevi esmola e, depois de haver escrito, hesitei: esmola não parecia bem.
- És um homem e tanto, eu é que não aguento lamechices.
Um dia vi um enterro de uma menina e fiquei a tremer que tempos, aflitíssima, até que me explicaram que não era eu.
- O seu peixinho cozido, Madame
e eu a fitar os olhos do bicho, adormecido na travessa
(a agrupar as feições que não são geométricas, tornei-me velha tão depressa)
- Estes artistas
com a mesma vontade de lhes perguntar o que acham do pós-modernismo e a minha pena dos pombos que têm mais fome que eu, a arranjar-lhes uma casa na varanda
- Os meus pais são tão lindos
(e eu que detesto lamechices)
e entendo tão bem toda a gente. Os pombos outra vez, apetece-me ter o queixo peganhento, que me limpem a boca. O sorriso inclina-se, dobra-se.
- É que esta vida não é minha
encontrei-a, agarrei-a quando a minha casa estalava, no meio do oceano, meio relojoeira, pirata, princesa e bruxa, não penses que me esqueço, que ser escritora é meio caminho andado para morrer à fome.
- Isto fica entre nós.